Realizar tarefas simultâneas prejudica o desempenho em algumas tarefas cognitivas
Postado em | 25 de agosto de 2009 | Comente!!
Está se tornando cada vez mais usual realizarmos diversas tarefas ao mesmo tempo. Em um tela procuramos vídeos no Youtube, em outra temos um texto interessante que encontramos na Internet, na terceira abrimos o buscador favorito e digitamos uma expressão que acabamos de ler e que ainda não sabemos o significado, o MSN fica constantemente chamando nossa atenção.
Mas qual o efeito desse comportamento multitarefa sobre a aprendizagem, a memória e outros processos cognitivos? As pessoas que regularmente realizam atividades multitarefas processam informações de maneira mais ou menos eficiente?
Ophir, Nass e Wagner publicaram um trabalho recente no periódico PNAS em que avaliam essas questões submetendo sujeitos que operam regularmente de maneira multitarefa, denominados HMM (“high media multitaskers”) e sujeitos que executam poucas atividades simultaneamente, denominados LMM (“light media multitaskers”) a tarefas que avaliam a capacidade de controle cognitivo.
Os sujeitos foram classificados quanto à sua prática multitarefa com base no índice MMI (“media multitasking index”), que mede o número médio de mídias que uma pessoa consome simultaneamente.
As duas primeiras tarefas avaliavam a capacidade dos sujeitos de filtrarem estímulos ambientais distratores. Para realizarem bem essas tarefas os sujeitos tinham que filtrar estímulos irrelevantes e impedi-los de entrarem na memória operacional (memória de curto prazo). Sujeitos HMM foram menos eficientes do que os LMM em impedir que informações irrelevantes entrassem na memória operacional, assim eles foram mais afetados pelos distratores.
Em outra tarefa, os sujeitos tinham que monitorar e atualizar constantemente as informações mantidas na memória operacional. Diferente das tarefas anteriores, em que o sujeito tinha que filtrar estímulos ambientais, impedindo-os de entrarem na memória operacional, nesta tarefa os sujeitos tinham que atualizar constantemente as informações na memória operacional e evitar que informações anteriormente válidas, mas desatualizadas, interferissem no desempenho. Sujeitos HMM foram menos capazes de filtrar informações irrelevantes na memória operacional.
Por fim, foi empregada uma tarefa de mudança de atividade na qual os sujeitos tinham que mudar de um tipo de tarefa de classificação de estímulo para outra, ora classificavam letras (vogais ou consoantes) ora classificavam números (pares ou ímpares). Os resultados mostraram que os sujeitos HMM tiveram tempos de resposta significativamente mais elevados do que os LMM, sugerindo interferência de um tipo de classificação sobre o outro; ou seja, os sujeitos HMM apresentaram mais dificultades em realizar transições de uma tarefa para outra.
A conclusão da pesquisa sugere que os indivíduos HMM tem mais dificuldade em filtrar estímulos irrelevantes do ambiente, sofrem mais interferência das representações irrelevantes mantidas na memória operacional e são menos eficientes em suprimir a ativação de tarefas anteriores ao mudarem seu foco de atuação para outras atividades. Conforme os autores mencionam, essa última constatação é bastante surpreendente, haja visto que uma das principais demandas das situações multitarefas é a necessidade de se alternar as atividades principais.
Apesar dos resultados sugerirem que os sujeitos HMM apresentam dificuldades em tarefas de controle cognitivo, é possível que o desempenho em outras tarefas cognitivas seja superior ao dos sujeitos LMM. Por exemplo, é claro que os sujeitos HMM são capazes de responder mais prontamente a estímulos menos prováveis a um dado contexto.
Ophir, Nass e Wagner (2009). Cognitive control in media multitaskers. PNAS 106 (33). DOI: 10.1073/pnas.0903620106
Tags: atenção > cognição > memória operacional > multitarefa > processamento de informações
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