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Notícias - Mentira
Seg, 06 de Julho de 2009 13:17

Esta culpa diz respeito ao sentimento sobre a mentira e não tem nada a ver com a questão se alguém é culpado ou inocente. A culpa da enganação também não tem nada a ver com o conteúdo da mentira. Assim, a culpa da enganação é a culpa por mentir.

A culpa da enganação também tem grau. Em níveis elevados ela pode denunciar o comportamento mentiroso através de vazamentos e dicas de enganação.

Enquanto algumas pessoas são acometidas de culpa da enganação, outras não a exibem comumente.

Vergonha é um sentimento relacionado à culpa, porém há uma diferença qualitativa entre esses dois sentimentos. Na culpa, a pessoa é seu próprio juiz e não há necessidade de haver espectadores. A vergonha, por outro lado, é mobilizada em função da desaprovação ou do fato de se sentir ridicularizado pelos outros. A distinção entre culpa e vergonha é muito importante, pois esses sentimentos puxam as pessoas para direções opostas. O desejo de reparar a culpa pode motivar uma confissão, enquanto que o desejo de evitar a humilhação e a vergonha pode impedi-la.

Os níveis de culpa da enganação são diretamente proporcionais ao grau em que compartilhamos valores sociais e culturais com o alvo da mentira.

Em algumas circunstâncias a mentira é autorizada. Nestes casos o mentiroso não sentirá culpa de enganação.

Certas mentiras são altruístas. O mentiroso não ganha absolutamente nada com a mentira. Neste caso, o mentiroso provavelmente não sentirá culpa por mentir.

A culpa de enganação deverá ser mais intensa nas situações em que a mentira não é autorizada e naquelas ocasiões em que o alvo estiver numa postura de confiança e não estiver estiver esperando ser enganado. Estas mentiras oportunistas devem gerar muita culpa, principalmente quando o mentiroso ganha tanto quanto a vítima perde. Todavia, mesmo neste caso, a culpa da enganação só ocorrerá se houver algum compartilhamento de valor entre as partes.

O mentiroso sente menos culpa quando o seu alvo é impessoal ou desconhecido.

Muitas vezes há uma relação inversa entre apreensão de detecção (medo de ser pego mentindo) e culpa de enganação. Aquilo que provoca uma diminuição da culpa aumenta a apreensão de detecção. A autorização para mentir reduz a culpa da enganação, mas pode aumentar o valor ou as consequências do que está em jogo e isto contribui para elevar o medo de ser pego mentindo.

Devemos, todavia, ter em vista que diversas combinações são encontradas: fatores que diminuem a apreensão de detecção e aumentam a culpa da engação e fatores que aumentam ou diminuem ambas. para se entender como esses sentimentos são acionados e interagem é preciso considerar a situação, o mentiroso e o alvo.

Há muitas de se justificar a mentira e reduzir a culpa de enganação. Algumas delas são:

  • Retaliação por injustiça - um alvo desagradável pode ser tratado como se não merecesse respeito e honestidade;
  • Um propósito nobre ou exigências de trabalho - algumas profissão e atividade exigem extremo cuidado na divulgação de informação;
  • A proteção do alvo - certas mentiras evitam a diminuição desnecessária da auto-estima do alvo;
  • O alvo "consente" em ser enganado - esta situação, quando realmente ocorre, torna o ato de mentir mais fácil. Todavia, a opinião do enganador sobre o desejo do alvo de ser enganado é problemática, haja visto que o mentiroso normalmente tente a acreditar que houve consentimento; pois essa crença ajuda a diminuir a culpa da enganação.

Resumindo, a culpa da enganação costuma ser mais intensa quando:

  • O alvo não quer ser enganado;
  • A mentira é absolutamente egoísta e a vítima não se beneficia em ser enganada e perde tanto quanto ou até mais do que o mentiroso ganha;
  • A mentira não é autorizada e a situação pressupõe honestidade;
  • O mentiroso não tem praticado a mentira por muito tempo;
  • O mentiroso e o alvo compartilham valores sociais;
  • O mentiroso tem um relacionamento próximo com o alvo;
  • O alvo não pode facilmente ser caracterizado de maneira negativa; por exemplo, como mesquinho ou ingênuo;
  • Não há razão para o alvo achar que pode ser enganado; ao contrário, o mentiroso tem agido para ganhar a confiança dele.

 

Fonte: Ekman, P. (1985). Telling lies: Clues to deceit in the marketplace, politics and marriage. New York: W. W. Norton. (Reimpresso em 1992 e 2001).

 

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